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A queda dos juros precisa chegar à economia real

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A redução da Selic de 14% para 13,75% ao ano, anunciada pelo Comitê de Política Monetária (Copom) em 16 de setembro, representa o quinto corte consecutivo de 0,25 ponto percentual. A decisão reduz a taxa básica de juros, mas mantém a política monetária em um nível que continua relevante para as decisões de consumo, crédito e investimento. O próprio Conselho Federal de Economia destacou, após a decisão, que os juros ainda permanecem elevados e impõem restrições ao crédito, ao investimento e à atividade econômica.

O debate, portanto, não deve se limitar à pergunta sobre quanto caiu a Selic, mas também sobre “se e como” essa redução vai chegar na economia real. Para a economia (empresas e famílias), a taxa básica não é o único componente que determina o custo de um financiamento. Há outras condições envolvidas na concessão de crédito, e a redução da Selic não significa que consumidores e empresários passarão, automaticamente, a encontrar dinheiro mais barato na mesma proporção.

Os números mais recentes do IBGE ajudam a colocar essa discussão em perspectiva. A economia brasileira cresceu 2,3% em 2025, enquanto o consumo das famílias avançou 1,3% e a formação bruta de capital fixo, indicador associado ao investimento, cresceu 2,9%. O próprio IBGE registra que o consumo das famílias desacelerou em relação a 2024 e aponta, entre os fatores, os efeitos da política monetária contracionista.

Em Pernambuco, acompanhar esse movimento também é importante. Os dados da Pesquisa Industrial Mensal do IBGE (julho 2026) mostram que a produção industrial do estado, apesar de uma queda de 1,8% em julho (em relação a junho/2026), acumula no ano (jan-jul) um crescimento de 16,5% na comparação com o mesmo período de 2025. Também houve queda de 1,8% no volume do comércio em julho (em relação a junho/2026) segundo os dados da Pesquisa Mensal do Comércio. Estes indicadores mostram que a atividade econômica responde a diferentes fatores e reforça a importância de observar os efeitos da política monetária sobre os setores produtivos, sem reduzir a análise a um único indicador.

A redução dos juros também precisa ser analisada em conjunto com a inflação. O papel da política monetária é justamente buscar a convergência da inflação para a meta, e o Copom afirmou que continuará avaliando a evolução do cenário econômico antes de definir seus próximos passos. Por isso, não se trata simplesmente de defender juros maiores ou menores, mas de compreender o equilíbrio necessário entre estabilidade de preços, condições de crédito e atividade econômica. A próxima reunião do Copom está marcada para os dias 3 e 4 de novembro.

Como economista, considero importante que esse debate seja acompanhado para além do mercado financeiro. A taxa Selic é um indicador macroeconômico, mas suas consequências aparecem nas decisões de empresas que precisam investir, nas famílias que recorrem ao crédito e nos agentes que planejam seus próximos passos. O desafio é fazer com que a estabilidade econômica seja acompanhada de condições que permitam à economia continuar produzindo, investindo e gerando oportunidades. A queda recente da Selic é parte desse processo, mas seus efeitos precisam ser acompanhados na economia real.

Keynis Cândido de Souto
Presidenta do Conselho Regional de Economia de Pernambuco (Corecon-PE)

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